terça-feira, 24 de abril de 2018




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O COMEÇO DO FIM (lIVRO ESCRITO E PUBLICADO EM 2010)
editora livre expressão


HISTÓRIA REAL...    
   
   
Esta HISTÓRIA é dedicada a todos que              

acreditam nos sonhos.

E que por eles lutam a vida inteira.             

                                                                   
                          
             SUMÁRIO
A GUERRA......................................

O INÍCIO DO AMOR........................

FAMÍLIA: A BASE FORTE.................

VIDA SOFRIDA NO SERTÃO SEM MAMÃE.............

SÃO PAULO E A RECONSTRUÇÃO DA MINHA VIDA
O RECOMEÇO ATRAVÉS DO AMOR...

A AUSÊNCIA DO HERÓI............

NUNCA CHEGARÁ O FIM. AMOR SEMPRE PRESENTE..............

COMEÇO DO FIM.........

                                      A GUERRA
O Brasil foi o único país da América Latina que participou diretamente da Segunda Guerra Mundial.
A Força Expedicionária Brasileira (FEB)
Nessa Guerra a FEB perdeu 44homens, entre soldados e oficiais.
Todos os Estados Brasileiros estavam representados na FEB.
Entre todos, Pernambuco.
Os pracinhas brasileiros adotaram o distintivo “A COBRA ESTÁ FUMANDO"
 Resultado de imagem para figuras a cobra esta fumando 
João Pereira de Souza, apelido TINDÁ, nascido em três de Junho de 1920, em Santa Cruz da Baixa Verde PE. Filho de Hermínio e Tereza.

                                            

Trabalhador rural juntamente com seu pai e seus irmãos para o sustento da família.
No auge dos seus vinte e quatro anos, na simplicidade da sua família, João é convocado para ir à Itália lutar nos campos de batalha.
Tereza sua mãe fica desesperada. E agora? O filho ir para Guerra. O que fazer? Perguntava para um, para outro. Não existia não querer. Mas Teresa não entendia nada. Apenas sofria.
João, como sempre muito paciente tentava acalmar os pais. Mas, após mais um dia de trabalho de sol a sol cansado e deitado em sua rede pensava. Como serão meus dias longe de tudo e de todos. Muito preocupado, entretanto, não deixava isso transparecer para seus pais. E pensava confiante. Nada Temerei... Seguirei em frente. Já que tenho que ir, irei confiante, acredito que Deus estará sempre comigo.
 Orações e promessas eram feitas constantemente. Vizinhos também tentavam confortar seus pais. Mas, aquela angústia ninguém conseguia tirar dos seus peitos. Para eles era como se fosse perder um filho para sempre. Entregando-o ao mundo desconhecido. Tereza já não dormia direito pensando em como ficaria sem o filho.
  Enfim o dia do embarque para sua missão. Seu destino naquele momento estava sendo traçado.
Todos lhe desejavam boa sorte. E que logo estivesse de volta ao Brasil.
Seus pais tristes acenavam para João. Em cada aceno as mãos socorriam as lágrimas que escorriam em seus rostos. Logo João estava dentro do carro que o levaria até outra cidade para treinamentos de onde alguns dias depois, juntamente com muitos colegas embarcariam de navio para Itália.
Naquele momento sabia que ia a busca do desconhecido, mundo estranho e quem sabe cruel.
João não imaginava o que iria encontrar por lá. De uma coisa tinha certeza, que iria, mas não tinha certeza da sua volta. Tinha que manter a fé e a esperança e acreditar que nada se acaba assim.
Tudo tinha uma explicação. Seu coração soluçava baixinho, explodindo de saudades, mesmo antes de ficar distante.
A bênção pai... A bênção mãe... Adeus pai... Adeus mãe. Quem sabe um dia... Estarei de volta a essas terras brasileiras que me viram nascer e crescer e jamais imaginaram entregar um filho seu a outro mundo.
Com seu adeus, a tristeza era tanta que até as folhas do velho cajueiro balançavam-se. Pareciam entender que dali estava saindo um jovem simples e humilde, mas poderia voltar um herói.
E quem sabe Deus, poderia até nunca mais voltar.
Adeus... Meu filho! Adeus... Meu filho! Assim falavam seus pais.
E quando João se deu conta alguns dias depois de dar adeus aos pais já estava dentro do navio que o levaria para Itália. Pois a data da partida não era divulgada por motivo de segurança.
No trajeto de dezoito dias dentro do navio, João até que afastou o medo de conhecer terras estranhas e ouvir a palavra GUERRA. Pois sabia que não havia alternativa. O lema de João era.
Seguir em frente. Seguir em frente. Vencer só DEUS é quem sabe. Muitas vezes sentia-se muito mal pelo balanço do navio quando a ventania era forte.
Fez vários amigos. Durante as noites se divertiam cada um contando suas histórias.
E chegando a terra firme, deu Glória a Deus. Mas ao mesmo tempo entristeceu-se ao ver tanta destruição. Ali olhando e sabendo que muitos brasileiros já haviam derramado seu sangue.
Naquele momento sentiu um arrepio em todo seu corpo e lhe veio o pensamento que não voltaria vivo ao Brasil. Sabia de certo que dias temerosos viriam.
A FEB era composta por homens de várias regiões do Brasil.
João e todos os pracinhas tiveram que se adaptarem ao rigoroso inverno Italiano que oscilava entre 15 e 20 graus negativos. Mas tinham que enfrentarem os campos de batalhas.
Os dias demoravam passar. Longe da família tudo era difícil. Pior ainda vendo tanta destruição e fazendo parte dela. Seu coração sempre acelerado e angustiado.
Quando ouvia falar, hoje a COBRA VAI FUMAR, João fazia suas orações quietinho em um canto. Só  Deus e seu coração ouvia.
Comunicação com a família no Brasil se tornava muito difícil, vez em quando escrevia poucas linhas apenas para falar que ainda estava vivo.
Cada carta recebida, seus pais agradeciam a Deus. Sua mãe vivia ajoelhada pedindo pela proteção do filho. Orações e Orações... e muitas promessas...
 
- 1945... Terminava a Segunda Guerra Mundial...
-"Vamos voltar ao Brasil". Frase que João e os outros receberam a notícia que a Guerra acabou.
Essa notícia foi recebida aos aplausos, aos gritos de alegria.
Dia 04 de setembro de 1945, João estava novamente entrando no navio para retornar ao Brasil.
E ao som de um apito que fazia encher o coração de todos de muita alegria o navio se afastava, deixando para trás só destruição e maldade.
E entre músicas e o Hino Nacional João sentia-se feliz com a certeza de que agora voltaria aos braços da família. 
 
                                                                  
João estava de volta a Pátria amada. Na sua chegada à casa dos pais, uma missa em ação de graças foi celebrada na casinha humilde em São José de Pilotos em Santa Cruz da Baixa Verde Pernambuco. 
Muitos fogos comemorando sua chegada. Amigos e parentes davam parabéns por ter voltado são e salvo. Tanta história para contar, coisas que jamais se apagarão da sua memória. Alívio por ter voltado, mas triste por tantos companheiros que por lá ficaram.
Agora junto à família, contando tudo o que passou que lutou em terrenos montanhosos com ardor e patriotismo. E que suportava as mudanças do tempo, inclusive os rigores do inverno com temperatura de 20 graus negativos. Mas dominando os adversários colhendo glórias para o Brasil.
Quantas lembranças, tantas histórias... Um Herói... Vivo perfeito, forte e saudável.
    Logo, voltava ao trabalho na lavoura com seu pai e seus irmãos como fazia antes de ir para Guerra.
Tantas lembranças que não queria lembrar. Mas nem por um dia, esquecia o que queria esquecer.
Agora ao lado dos pais e dos irmãos só queria viver... Viver... E viver.
Lágrimas em seus olhos rolavam cada vez que alguém perguntava sobre o que passou. Por alguns dias viveu fechado dentro de si mesmo. E com muito amor dos seus pais, com o tempo foi se reencontrando e tentando ser o mesmo homem que era anteriormente.
 
 
                                                  O Início do amor
1948... Sítio Paus Brancos... Noite de São João. Lá fora os fogos iluminando o céu.
Os risos das pessoas, a fogueira queimando no terreiro da casa dos pais de Nina, que estava cheio de parentes e amigos. Regina, apelido Nina. Moça bonita e alegre entra correndo e fala;
- Tindá! Vamos homem, o pessoal está esperando por você.
Anda, se anima é noite de São João.
Tindá, rapaz calado, como se vivesse constantemente trancado em seu mundo particular. Mas já se sentia atraído por aquela linda jovem.
Naquela noite de muito calor e com alegria trocaram olhares. O modo com que Tindá a olhava deixava Nina totalmente desconcertada. Nina com seu vestido rodado de cor azul e rosa, linda aos olhos de todos. Moça bem cuidada e muito educada, filha de Dudu e Luzia, casal de melhores condições naquela região do nordeste.
Como num conto de fadas, a princesa cujo encanto era invejado pelas meninas daquela redondeza. Nina percebia que Tindá a observava cada movimento que ela fazia.
Chegando mais perto de Nina, Tindá segura sua mão e encosta seu rosto ao dela e beija sua face.
Assustada, Nina não conseguia olhar nos olhos dele e confusa, dissera-lhe que estava com sono e de mansinho foi se afastando. Nunca ninguém teria se atrevido a tal ponto de beijar-lhe. Sentiu vergonha, medo e ficou encabulada com aquela situação.
Com apenas dezessete anos Nina nunca havia namorado. Mas Tindá mexeu com seu coração.
A festa termina e Nina naquela noite não consegue conciliar o sono, sua cabeça borbulhava de pensamentos.
Após aquela noite de São João, Tindá sempre arrumava um tempinho aos finais de semana principalmente aos domingos, após assistir a missa ia dar um passeio no sítio Paus Bancos.
E sempre achava um jeito para conversar com Nina.
Nina por sua vez ficava feliz quando Tindá chegava. E entre uma conversa e outra, olhares apaixonados trocavam. E nessas idas e vindas, conversas e olhares os dois deixaram de ser só conhecidos.
Tindá naquele domingo foi decidido falar com Nina que queria namorá-la.
Em meio ao sol que já estava muito quente, Tindá tira seu chapéu segura a mão de Nina e fala:
- Hoje eu vim aqui para te falar uma coisa.
 - Falar o que? Nina pergunta num tom carinhoso e com um sorriso nos lábios.
Se afastando um pouco abaixando a cabeça Tindá não respondeu nada. Em um momento de silêncio sentiu que era chegada a hora de falar. Não podia esperar mais.
Outra vez segurando as duas mãos de Nina e olhando em seus olhos fala com toda clareza.
   Desde que a vi naquela noite de São João senti que estava apaixonado por você.
E com muito cuidado para não assustá-la encosta seu rosto no dela e antes mesmo que Tindá falasse mais qualquer palavra Nina o beija.
 - Estou agindo errado? Ela pergunta com um leve sorriso nos lábios.
Trêmulo como se fosse um adolescente Tindá responde com um longo beijo que a deixou sem ar. Nina meio sem jeito ainda fala:
  - Eu sei o que você está querendo me dizer...
Olhando fixamente por alguns segundos nos olhos de Nina, Tindá fala.
E com um sorriso nos lábios e olhos brilhando de paixão fala baixinho:
- Ainda bem que você já sabe o que eu tenho a lhe dizer. Quero namorar você.
Nina ficou imóvel por algum tempo só olhando para ele. Um olhando para o outro e começaram a se chegarem pertinho enquanto seus corpos se colaram em um abraço apertado e assim começava a história de João e Regina. Ou melhor, de Tindá e Nina.
 
Alguns meses depois, Tindá a pediu em casamento. Seus pais não receberam esse pedido com muito prazer.
Afinal de contas Tindá rapaz de boa família, trabalhador e muito educado, mas de família muito pobre. Nina não via obstáculo nenhum. Já amava Tindá e nada a faria deixá-lo.
Os pais de Nina vendo que a filha ficaria triste se eles não concordassem não acharam outro jeito a não ser aceitar.
  Deixando a timidez de lado, Tindá a estreita em seus braços beijando-a longamente, selando aquele compromisso.
Agora primeiro namorado, Nina sentia-se maravilhada e suas noites eram sempre povoadas de ótimos sonhos.
   E o dia amanhecera quente e ensolarado. Agora o silêncio da noite dava lugar ao canto dos pássaros nas árvores em volta à casa de Nina.
Primeiros raios de sol entrando pela janela do quarto de Nina. Distraída com seus pensamentos nem percebe o que acontece em sua volta.
E tudo começava outra vez...
Alguns meses de namoro e resolvem casarem-se. Nina com dezoito anos incompletos e Tindá com vinte e oito.
  Dia vinte e três de janeiro de 1949, as andorinhas voavam apressadas atravessando a torre da Igrejinha, onde era celebrada aquela união.
Manhã de céu azul de um domingo ensolarado, dois jovens apaixonados agora conseguiram uma certeza: de que a felicidade, desta vez seria para sempre.
   Depois da cerimônia religiosa, após os cumprimentos, foram para casa do sítio Paus Brancos, onde os pais de Nina faziam uma grande festa. Comes e bebes para todos os convidados.
Entre um convidado e outro, os noivos saem de mansinho sem se despedir de ninguém.
Agora a caminho da simples casinha onde iriam morar.
Tarde de sol, os cajazeiros de cada lado transformavam um túnel escuro ao longo do caminho que só tinha pedrinhas e terra solta.
Abraços e beijos a cada passo que davam. Não tinham pressa... Agora eram um do outro e ninguém se atrevia a atrapalhar aquele grande amor. Aquela paixão.
Nina apaixonada, seus olhos seguiam pelo caminho, acompanhada agora pelo seu esposo.
Cansados e com respiração ofegante, sentaram-se em um tronco para descansar. A cada passo que davam um suspiro de felicidade.
Abraços e beijos e continuam a caminhar.
- Vamos pelo atalho, a casa é logo ali. Podemos atravessar o riacho para chegarmos mais depressa. - disse Tindá acariciando o rosto de Nina.
Para atravessar o riacho, Tindá a pegou no colo, para que Nina não escorregasse nas pedras.
A sombra fresca da casinha simples. Agora os dois a sós. Os dias passavam e o amor aumentava.
Tindá trabalhava na lavoura e Nina cuidava da casa. Às tardes ao retornar para o aconchego do seu simples lar Tindá percebia o brilho no olhar de Nina. Sua amada esposa.
O dia inteiro com a enxada na mão, e chapéu de palha na cabeça, mas Tindá não demonstrava nenhum cansaço. Não havia tristeza, nem reclamação. Nina sempre muito cuidadosa e atenciosa.
Entre um dia e outro de trabalho, Tindá chegava ao entardecer sempre assoviando ou sussurrando alguma coisa. Às vezes chegava e recitava alguns versos para sua amada.
 Amar é...
Morrer de medo
Da tristeza e da solidão
Amar é...
Ter o aconchego
Do amor, de uma paixão.
Amar é...
Ouvir o canto
Dos pássaros que voam no céu
Amar é...
Sentir o encanto do teu corpo junto ao meu.
Amar é...
Ver em seus olhos
O brilho de um olhar bondoso
Amar é...
Dormir no colo
Ganhar carinho e ser carinhoso.
O nosso amor é uma canção tão pura
Que não se sabe de onde vem
É uma imensa ternura
Num balanço de amor
Que vai e vem...
O nosso amor é tão verdadeiro
Perfume de flor e jasmim
Para mim é meu amor primeiro
Que sinto e guardo dentro de mim.
E nesse encanto de tanta felicidade os dias passavam na mais perfeita harmonia.
                                       FAMÍLIA: A BASE FORTE


   Dezembro de 1949 Nina sente falha em sua menstruação e logo conta para Tindá. Ficam felizes em saber que estava a caminho seu primeiro filho. Não havia médico por perto. Logo a barriga de Nina começava crescer e ela sentia as primeiras mexidas. O bebê dando sinal de vida. E assim passavam os dias esperando o primeiro filho. E dia 24 de agosto de 1950 Nina sente muitas dores.
Deita-se em sua cama e Tindá sai em busca da parteira. Mas quando a parteira chegou já havia nascido uma menina de pele branquinha e cabelos escuros. Os dois ficaram deslumbrados com o nascimento da primeira filha. Seu nome Maria do Socorro.
A vida na roça no sertão Pernambucano era simples e muitas vezes faltavam as coisas essenciais.
Na luta de todos os dias, mas o amor não faltava entre os dois.
Logo veio mais um filho desta vez um menino. Forte e saudável. De nome Aguinaldo.
Tindá sempre na lavoura trabalhando de sol a sol para o sustento da família.
O orgulho e a felicidade de Tindá com a esposa e seus filhos era visível aos olhos de todos. A harmonia reinava em seu lar.
Durante as noites de verão, sua casa pequena e mal iluminada pela luz de lamparina enchia de vizinhos. As cadeiras raramente davam para todos, e muitas vezes as senhoras sentavam em pedras no terreiro de casa e ali passavam horas conversando e contando histórias de suas vidas.
A única coisa que podia oferecer era chá de folhas de laranjeiras.
Muita luta, mas Tindá sempre pensando em dar o melhor para sua esposa e seus filhos.
Os dias passavam, mas Tindá não via nada mudar para que eles tivessem uma vida melhor. Trabalhava, trabalhava, mas não via lucro. Pois tudo o que colhia só dava par comer.
    Certo dia, cansado da roça, a seca castigando o nordeste, Tindá resolve conversar com a esposa.
   - Nina minha querida! Estive pensando o que fazer para melhorar esta nossa situação.
-Se nós formos para São Paulo. Lá eu posso arrumar um emprego e a gente poderá viver melhor.
 - É meu amor, estamos diante de uma situação difícil. Ir para São Paulo sem saber o que vamos encontrar por lá, ou ficar aqui no nordeste, sem garantias de melhoras.
Tindá e Nina preocupavam-se com a mudança, mas nada os fazia perder a calma e a esperança de que tudo um dia iria mudar.
Cada dificuldade os tornavam mais apaixonados. E decidiram que iriam para São Paulo.
   Foi por um desses dias de Setembro de 1952, tarde em que o sol era tão ardente, as folhas secas se balançavam caindo no terreiro da casinha simples que iam deixar para trás. Tindá a abraçou e com muita calma falou:
-Tenha paciência minha querida, tudo vai dar certo. Confie em Deus! Não quero ver tristeza nesse seu rosto lindo.
E assim fizeram. Juntaram as poucas roupas que tinham e foram para São Paulo.
Dentro do ônibus Nina observava pela janela a natureza. Alguns lugares mais verdes, outros castigados pela seca. Mas, em seu peito a esperança continuava verde.
Após vários dias de viagem chegam a São Paulo. Pompeia. Lá não tinha alternativa a não ser trabalhar na lavoura.
Desgostavam- se ao ouvir as histórias dos que também haviam vindo para São Paulo e não se deram bem.
Tindá tentava não desanimar e conformava Nina de um jeito cuidadoso e carinhoso para que ela não ficasse triste.
Dois filhos... Uma menina de dois anos, um menino de sete meses e Nina já estava grávida de dois meses do terceiro filho.
Ela era tudo que Tindá precisava, mas existia preocupação com ela e com as crianças.
1953 ... Nasce mais um filho, menino fraquinho, que inspirava cuidados. Eugênio... Agora mais um filho. Cada dia as despesas iam aumentando.
Apesar de muito esforço, Tindá via toda sua luta escaparem-se pelos dedos.
Assim diante de tanta dificuldade Nina começava então a ficar triste
E vez em quando Tindá a pegava chorando. Ver sua amada triste não o fazia sentir-se bem. Pois seu único objetivo era tentar sempre melhorar e correr atrás dos sonhos, mesmo que sentisse O COMEÇO DO FIM não desistia. A esperança e a companhia de sua esposa e de seus filhos eram o conforto para seus sonhos continuarem.
Em sua tristeza Nina logo que deu a luz e não vendo mudança em nada, sem perspectiva achava que não tinha outro jeito e chegando pertinho de seu esposo fala sem titubear.
- Tindá, eu quero voltar para o nordeste. Mesmo que lá as coisas sejam ruins ainda é melhor do que aqui.
Com um ar de tristeza no rosto, mas para ver um sorriso nos lábios de Nina, Tindá fixa seu olhar no dela, segura seu queijo a beija e fala:
- Vamos sim meu amor, logo providenciaremos tudo.
Passavam noites em claro por sentirem infelizes, sem que essa infelicidade contribuísse para diminuir o amor um pelo outro.
Mesmo Tindá concordando em voltar para o nordeste, ele ainda queria tentar um pouco mais. Ele não queria desistir. Sempre havia uma luz de esperança em seu coração.
E com muito diálogo entre muitos porquês resolveram tentar mais um pouco.
Tindá nessas procuras de melhorias arrumou um emprego numa fábrica até então “LEITE PAULISTA”.
Mas mesmo assim as dificuldades continuavam.
   Em sua tristeza e já sem forças para continuar aceitando aquela situação Nina resolveu frequentar a Igreja Evangélica, tentando encontrar um consolo para suas aflições.
Os meses, os dias, as horas passavam e nada mudava. Salário pouco e muitas despesas.
- Tenho pensado muito no que seria melhor para nós dois e nossos filhos. Disse Tindá ar preocupado e com o rosto sombrio e os olhos cheios de lágrimas.
- Sim, tenho medo de que as coisas possam vir a ficar piores do que já estão. As coisas estão se tornando cada vez mais difíceis para nós.
- Isso não Tindá! As coisas não podem ficar piores do que já estão.
Nina respondia com um tom sereno, mas com receio de tudo.
E entre dúvidas e incertezas resolveram voltar para Pernambuco.
E aí... Santa Cruz da Baixa Verde, outra vez nordeste Pernambucano. Outra vez na lavoura. Esperando chuva, terra arada esperando o plantio.
Algum tempo depois, nasce mais um filho, esse veio a falecer com sete meses de idade.
Época em que não existia médico por perto, filhos nasciam em casa com a ajuda de parteiras. Não existia um planejamento familiar.
Assim era um filho, outro filho e mais um filho...
   A vida de Nina e Tindá não era fácil nem agradável..
Depois que tinham o que comer todos aliviados, esforçavam-se para esquecer os dias de idas e vindas.
A vida na lavoura continuava.
Terra arrendada.
Logo vieram dias de chuva. A casa fria e úmida deixava passar correntes de ar pelos andaimes. Goteiras por toda parte.
Com as chuvas, a esperança de uma boa colheita. O plantio de milho e o feijão iam começar. O que importava era ter comida para não passarem fome.
O fogão a lenha. No terreiro os gravetos amontoados prontos para serem queimados.
   Tarde do dia 07 de Fevereiro de 1957, quinta-feira, Nina sente dores. Mais um filho estava para chegar a esse mundo.
Às pressas, montando o seu jumento sem sela, Tindá, pernas finas, chinelos de dedos, parecia uma criança galopando pelos caminhos empoeirados cheios de pedras e ladeiras.
Na ansiedade, no desconforto na pressa cai do jumento levanta-se monta outra vez e vai sem perceber que havia machucado uma perna.
Apenas queria encontrar a parteira dona Joana em casa.
Enfim consegue levar a parteira a tempo.
Parteira chega, nasce com sua ajuda uma loirinha de olhos azuis.
Muito felizes pelo nascimento de mais uma filha.
Maria do Carmo. Eu chegava a esse mundo perfeita e saudável.
Criança calma, muito serena e sem se dar conta, Nina, agora minha mamãe amamentava-me sem tirar o olhar do meu rosto que por várias vezes nem ouvia os gritos das outras crianças.
Feliz com o nascimento de mais um filho, Tindá, agora meu papai levava seus pensamentos a Deus... Pedindo força e que Deus mandasse chuva para que tudo florescesse. Pois, quando a chuva não vinha perdia-se tudo o que se plantava.  
Há algum tempo papai planejava em ir embora para o Maranhão e se a chuva não viesse tinha que procurar melhorias.
No Maranhão, lá já estavam seus pais e sua irmã Alzira.
Pará lá e para cá... Pará lá e para cá, tentando a vida melhorar.
Após alguns meses depois do meu nascimento papai chega cansado da roça, coloca sua enxada no chão entra pela porta da cozinha e ver os filhos próximos ao fogão junto a mamãe esperando o jantar.
Abraçou mamãe e beijou cada filho e num tom cansado bateu no peito e falou. 
   “Hei de vencer meus filhos, e não deixar mais vocês passarem tantas necessidades.”
Abaixou a cabeça e secou as lágrimas com a aba da camisa.
Mamãe olhou para ele, não deu resposta, mas pensou: “Nessas idas e vindas quem sabe um dia você vencerá.”
   Depois de muito conversarem, embora meio temerosos de enfrentar uma viagem longa com quatro crianças, decidiram viajarem para o Maranhão.
   Maio de 1959... O pau de arara na estrada esburacada, levando eu, Socorro, Naldo, Gino, mamãe e papai.
Os dois em silêncio deixando outra vez a seca para trás. Não havia movimento algum na estrada poeirenta. E só Deus sabia o que íamos encontrar e quanto papai e mamãe teriam que trabalhar para nos sustentar. Quantos sonhos! Mas a esperança e a fé não os deixavam desanimar.
Dezessete dias de viagem em cima daquele pau de arara. Enfim, chegamos em D. Pedro, cidade do Estado do Maranhão.
  Não, não queriam chorar! Sentiam o mesmo aperto no peito e uma lágrima presa na garganta que se repetia toda vez que chegavam a um novo lugar.
Tudo para eles era incerto. De um lugar para outro, procurando melhores condições de vida.
Eu e meus irmãos nada entendíamos, apenas queríamos estar juntinhos ao papai e a mamãe.
Enfim, chegamos... Meus avós pais de papai e minha tia Alzira irmã dele já moravam no Maranhão e estavam a nossa espera.
Eu tinha dois anos de idade e ainda mamava o peito.
Por um momento mamãe sentou-se em um caixote para me amamentar e naquele silêncio relembrava os dias que passara em cima daquele pau de arara.
Maranhão, terra de plantio de arroz.
Logo papai foi trabalhar na lavoura e mamãe foi ser professora de algumas crianças. Apenas ensinava ler e escrever.
Cada dia que amanhecia davam graças a Deus. Tinham agora ao menos um meio de ir alimentando os filhos.
Era costume arrendar as terras. Tudo o que se colhia era dividido com os donos.
Alimentavam sempre a esperança de que ali iriam tirar o sustento para todos.
Tindá, papai, homem honesto, trabalhador, simples, e na sua humildade não se ouvia reclamar de nada. Na sua calma, sempre procurava encontrar a melhor maneira para resolver os problemas.
Meus avós, Hermínio e Tereza sempre nos ajudava no que podiam.
  1961... Eu já havia completado quatro anos. Mamãe dá a luz a mais um filho. Menino fraquinho... Parecia um brinquedo de tão pequenino. José Vitoriano (Zezinho)
Papai estava muito contente, preparava o nosso almoço. Fogão a lenha, panela de barro no fogo cozinhando o xerém para fazer o angu.
Mas na empolgação do nascimento de mais um filho deixou o angu queimar, esqueceu a panela no fogo. Pois estava ajudando mamãe dar banho no bebê.
Eu, com meus quatro anos queria mamar o peito e não deixava o bebê mamar.
Para que eu continuasse mamando o peito, mamãe pediu que uma senhora vizinha que tinha dado a luz também, amamentasse meu irmãozinho.
Eu chorava muito para mamar e não entendia que o peito era para o bebê.
   Já estávamos a mais de três anos no Maranhão, mas a seca começava castigar também aquelas terras.
Se a vida até então era sem garantias e apreensiva, tornava-se agora mais difícil.
Por mais que lutasse, o que conseguia mal dava para sobreviver.
Quando se pensava que tudo estava melhorando, a seca vinha para estragar.
1962... Mais uma vez todos em cima de um pau de arara. Outra vez dezessete dias de viagem de volta à Pernambuco.
Desta vez meus avós também retornaram. O pau de arara que nos conduzia passava nas estradas entre os matos ressecados. Nenhuma árvore projetando um pouco de sombra.
A poeira entrando pelas narinas, ressecando a garganta de tal forma que quase não saía a voz.
O cheiro de óleo queimado dos carros e caminhões que por ali passavam também nos fazia senti mal.
Mais uma vez chegando a Pernambuco. Santa Cruz da Baixa Verde.  Fomos morar em uma casinha humilde, muito simples mesmo. Em sua volta só uma cerca de a veloz, no terreiro um pé de roseira.
Nos adaptávamos facilmente aos lugares.
Por mais dificuldades que passasse e a preocupação com os filhos, papai nunca se alterava. Mantinha-se sempre calmo e paciente.
Alimentava sempre a esperança de chegar outro dia e tudo melhorar.
Às vezes, em dias de trabalho ofegante, de luta desespera para conseguir alimentos, de cuidados constantes com os dois filhos Naldo de DOZE anos e Gino com 10 anos que passavam os dias nas roças, chegava em casa e não se ouvia nenhuma reclamação.
Papai homem muito calado, vivia sempre trancado no seu mundo interior.
Mamãe mulher bonita muito falante, rígida de sorrisos altos e se precisasse gritar gritava sem pensar em quem estivesse por perto.
A vida se resumia em conseguir o que comer e sonhar com dias melhores.
Não éramos as únicas pessoas a passar necessidade em Santa Cruz. Para qualquer lado que voltasse encontrava-se muitos na mesma situação.
   Dia 2 de agosto de 1963 , Mais um filho, corre chama a parteira, nasce uma menina linda, olhos pretos cabelos  escuros. Maria de Fátima.
Alguns dias cai o umbigo de Fátima e mamãe coloca numa caixa de fósforos e pede para que eu enterrasse aquela caixinha em baixo do pé de rosas no terreiro de casa.
Lembro com se fosse hoje:
“Filha, enterra o umbigo da sua irmã em baixo do pé de rosas que é para ela ter muita sorte. Dizem que as rosas exalam o cheiro, e tudo o que estiver por perto receberá muitas bênçãos”. E assim eu fiz. Peguei a caixinha de fósforo, cavei um buraco com um pedacinho de pau e ali deixei o umbigo de Fátima.
Entrei em casa correndo e sorrindo. E Com meus seis anos achava que tinha feito a melhor coisa do mundo.
- Mamãe... Mamãe... Já enterrei o umbigo lá. Mamãe me abraça sorrindo e agradece.
   Mas a alegria de mamãe com o passar dos dias era notável a sua diferença.
Com tantas dificuldades e a falta de quase tudo para os filhos, vendo os dois meninos pequenos na roça de sol a sol, mamãe ia ficando muito triste e nervosa.
Aquele sorriso alegre, já não se via mais.
Aquelas gargalhadas que se ouvia constantemente, já não mais se ouvia  com muita frequência, toda aquela alegria ia se apagando do seu rosto.
Será que não havia mais razão?
Por pior que fosse a situação nunca vi papai discutir com mamãe e nem brigar com os filhos. Papai só sabia trabalhar na lavoura.
Nossa alimentação era sempre angu ou pirão de farinha com água e sal.
Muitas vezes Naldo e Gino iam para os matos com o borná cheio de pedrinhas para caçar passarinhos para comermos assados com angu.
Às noites antes de dormir, tomávamos chá de folhas de laranjeira.
   Apesar da dor de cabeça, estômago vazio ou cansaço por mais um dia de trabalho, as orações eram sempre feitas.
Àquela hora era sagrada, havia uma profunda sensação de paz e união entre nós.
    Parte do desapontamento e da incerteza do amanhã era substituída por uma réstia de esperança.
Quando se apagava a luz da lamparina, mamãe nos colocava para dormir nas redes feitas de saco, cantando sempre a mesma música.
“Mãezinha do céu, eu não sei rezar”.
Só sei dizer, quero te amar.
Azul é teu manto, branco é teu véu.
Mãezinha, eu quero te ver lá no céu”. 
E assim, dormíamos embalados pelo som da sua voz.
Voz que até hoje não me sai da lembrança.
   Por ser um Ex Combatente da Segunda Guerra Mundial, papai se sentia no direito de ir a busca de algum benefício do Governo. Vez em quando ia até Recife. Idas e vindas. Idas e vindas e nada conseguia.
  Nessas idas e vindas de papai nós ficávamos em casa com mamãe.
Havia época em que papai ficava até duas semanas fora. Naldo e Gino, com seus onze e doze anos iam para roça, trabalhar nas frentes de trabalho para sustento nosso. Duas crianças, chapéu de palha na cabeça, enxada nas costas e saiam logo nos primeiros raios de sol. Isso tudo ia deixando mamãe muito triste e infeliz. Filhos tão pequenos, que ao invés de estudarem tinham que trabalhar para o sustento da família.
Lembro-me da festa que fazíamos quando papai retornava para casa. Eu ficava sentada numa pedra esperando papai voltar.
Quando ele apontava naqueles caminhos eu corria avisar mamãe. Ele sorrindo vinha ao nosso encontro, beijava mamãe e me pegava no colo.
Mamãe ficava triste quando ele falava que não havia conseguido nada.
Já estávamos acostumadas com as idas e vindas de papai para Recife em busca do “tal benefício”.
Ele não desanimava e falava:
“Um dia vou conseguir, meus filhos”. Muitas vezes com os olhos cheios de lágrimas.
Fui crescendo vendo a luta de papai  na roça e em busca desse benefício.
  Habitualmente todas as manhãs, Socorro ia buscar água para encher os potes na cacimba que ficava próximo ao riacho. Eu ficava com mamãe ajudando varrer o terreiro. Papai Naldo e Gino iam para roça.
Quando mamãe fazia o almoço Socorro e eu íamos levar na roça. Almoço era angu com rapadura e caldo de feijão.
De longe avistava papai e meus irmãos. O sol ardia sobre suas cabeças cobertas com aquele chapéu de palha. Durante o almoço, procuravam uma sombra embaixo de um pé de aroeira. O suor escorria em seus rostos. Era Deus e eles naquelas terras vermelhas do sertão nordestino.
Logo eu e Socorro novamente estávamos voltando para casa, nos caminhos tortuosos, cheios de pedras, terra solta e riachos secos.
Capim seco que beirava os caminhos. Cabras, cabritos, jumentos em busca de ração para pastarem. As sombras das moitas aqui, acolá, envolviam toda aquela paisagem seca.
   Durante toda caminhada e volta para casa, passávamos por algumas casinhas no meio do mato.
Havia uma casinha chamada CRUZ MILAGROSA, onde as pessoas pagavam promessas, levando e deixando objetos. Alguma coisa que descrevesse o seu pedido. Nesse dia, lá estava uma boneca de pano. Muito bonita a meus olhos. A boneca era maior do que eu. Nessa época, eu estava com meus seis anos.
  Eu nunca tive um brinquedo, queria aquela boneca de qualquer maneira.
Chorei muito, fazia birra. Gritava “Eu quero, eu quero”, Socorro, com a maior calma, falava: “Não chore assim menina”!  Não podemos fazer isso. “Essa boneca é da CRUZ MILAGROSA”.
Mas eu continuava chorando: E eu quero, eu quero! Aos altos soluços.
Com o coração aos pedaços por me ver chorar daquele jeito, Socorro, que também passou pela infância e nunca soube o que era um brinquedo, olhou demoradamente para mim, secou minhas lágrimas e depois se abaixando, apanhou aquela boneca e me entregou.
Fiquei sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Como se fosse possível alguém chorar e sorrir. Mas era assim que eu me senti de tanta felicidade. Esfregando o rosto com as mãos sujas de terra.
Sai arrastando aquela boneca pelos caminhos cheios de espinhos. Falava soluçando... “Agora eu tenho um brinquedo”. “Agora eu tenho um brinquedo”. Mas a felicidade durou pouco. Quando chegamos em casa, mamãe vendo aquela boneca e já sabia que era da CRUZ MILAGROSA, notamos no rosto de mamãe uma expressão onde havia dureza e nervosismo.
- Socorro... Você poderia ter voltado e não deixar Carminha trazer esta boneca.
Porém tão grande
Era seu medo e cansaço que Socorro não conseguia nem falar.
- Voltem lá agora, deixem essa boneca no mesmo lugar. Não quero isso aqui em casa.
Mamãe falava gritando.
Ouvindo os gritos estridentes de mamãe, imediatamente eu e Socorro saímos e fomos levar a boneca de volta a CRUZ MILAGROSA.
Tínhamos que obedecer, pois mamãe era muito severa e ordeira. Não aceitava que fizéssemos nada errado. E para ela aquilo era um grande erro. Tirar aquela boneca que alguém deixou para pagar promessas, era uma desobediência muito grande.
Mas, quando chegamos de volta em casa, senti que mamãe nos olhava com ternura. Procurando conforta-me encostou minha cabeça de encontro ao seu peito e falou baixinho. “Minha querida pequena, não chore mais, pois um dia quem sabe mamãe possa comprar uma boneca para você.” E escondendo o rosto entre as mãos, começou chorar para que eu não percebesse.
Eu, ingenuamente, olhava para ela atentamente tentando entender o seu pensamento. Talvez pensasse... Meus filhos, nunca tiveram brinquedo. Mas um dia quem sabe...
   1964... Mês de fevereiro. Mudamos para o Sítio Paus Brancos, fomos morar próximo a casa dos pais de mamãe. Meus avós maternos. Pessoas que tinham melhores condições de vida.
Como a casa em que fomos morar ficava pertinho da casa de vovó Luzia, o cheiro das comidas que ela fazia chegava até a gente.
Quando o cheiro do torresmo fresco entrava em nossas narinas, desejávamos saboreá-lo.
Porque a todo o momento tínhamos vontade de pedir. Mas bastava um olhar de mamãe, já sabíamos o que ela queria dizer.
Ela não gostava que pedíssemos nada.
   Mamãe, mulher muito bonita, às vezes risonha, muitas vezes triste.  Tinha razão sua tristeza. Filhos pequenos, trabalhando de sol a sol...
Muitas vezes até com a barriga vazia.
    Mamãe, sempre junto ao fogão a lenha, cozinhando milho para fazer angu. Sonho de ver tudo melhorar, mas só ficava no sonho.
    Papai, mãos cheias de calos do cabo da enxada. Na cabeça loura, viam-se muitos cabelos brancos. Era raro vê-lo sorrir. Por que razão lutava tanto e não conseguia nada¿
Tantos sonhos!
Por um momento, estávamos todos juntos e papai exclamou:
- Com fé em Deus, meus filhos, um dia nunca mais hei de ver vocês passarem fome! Um dia minha família não saberá mais o que é passar fome. Mas não sem lutas. Garanto-lhes... Falando isso em voz alta e bom som.
E a luta de papai e os dois meninos continuavam.
   15 de Março de 1965... Nasce mais  um filho, com ajuda de parteira outra vez. Um menino lindo de olhos azuis da cor do céu. Seu nome Roberto.
Aos trinta e três anos mamãe com seus sete filhos. Mas agora já não se via alegria em seu rosto.
 Ano de muita seca, cacimbas eram cavadas na beira dos riachos.
Socorro ia e vinha com latas d'água na cabeça para encher os potes.
Água barrenta e cheia de bichinhos chamados de cabeça de prego, por isso a água era coada antes de beber.
Muita coisa para contar...
Mas os dias passavam e iam passando e uma transformação em mamãe estava deixando papai muito preocupado. Após o nascimento do último filho, Roberto, tudo a fazia ficar nervosa. Já não tinha paciência com as crianças, não tinha paciência com nada.
Depois de mais um dia trabalho, Naldo e Gino saem da roça e só Gino chega em casa com papai. Mamãe não vendo Naldo pergunta:
- Naldo não veio com vocês¿
- Ele ficou tomando banho na lagoa – Gino responde.
– Mas eu falei que não era para tomar banho na lagoa de água quente. E ainda mais a água está barrenta. E ali se calou...
Mais logo Naldo chega, janta e cansado do trabalho arma sua rede e cai no sono.
Era isso que mamãe estava esperando. Sem falar nada pega o chicote que estava no torno e começa bater em baixo da rede. E bate, e bate, e bate até a rede se rasgar e Naldo chorando cai no chão e continua chorando. Mamãe continua batendo até papai pedir para ela parar.
Naldo não parava de chorar e soluçava... Já todo cheio de marcas do chicote.
No dia seguinte Naldo não consegue ir trabalhar. Amanheceu com febre muito alta.  Mamãe estava arrependida foi cuidar dele com maior carinho, mas chamando-lhe atenção.
    Certo dia...
Recordando os longos caminhos que tinham percorrido as idas e vindas, as lutas de papai e dos meninos.
Como nunca aconteceu... Mamãe disse:
“A vida não tem obrigação de realizar nossos sonhos. Devemos nos contentar com o que a vida nos dar e agradecer que não seja pior ainda”.
Inesperadamente, as lágrimas lhes brotaram dos olhos, deslizando lentamente pela face abaixo, e ela ficou calada a nos olhar como se estivesse olhando o infinito.
Sem uma palavra papai a abraçou docemente, encostou seu rosto ao dela e acariciou seus cabelos.
Os dois ficaram parados em silêncio por alguns minutos.
  Mas a cada dia tudo ia mudando em mamãe, e papai estava muito preocupado.
E quantas vezes as lágrimas de mamãe escorriam pelo rosto e a gola do vestio servia de lenço. E os olhos ficavam vermelhos e papai percebendo pedia a Deus que aliviasse tudo que sua amada estava sentindo.
Nas tristezas e agonias que mamãe sentia, sem que menos papai esperasse, começou sentir certa rejeição por Fátima sua filha de dois anos e meio.
“Não quero essa menina aqui! Leve-a embora.”
Nessa hora papai entra e ouvindo aquelas palavras, seus olhos ficam rasos de lágrimas. Com tristeza...
- Não posso tirar nossa filha daqui minha querida. E chegando perto a mamãe acariciava seu rosto e pedia que se acalmasse.
- Não quero essa menina aqui.
- Leve-a embora... Leve- a embora. E levando as mãos ao rosto socorria as lágrimas.
- Fique calma, que eu vou levar a menina para casa de Maria.
Maria, senhora que morava no vilarejo- Santa Cruz da Baixa Verde.
Papai arrumou algumas roupinhas e segurando Fátima em seus braços, engoliu em seco e seguiu a caminho do vilarejo. No caminho uma pergunta lhe calava a voz. “Por que meu Deus, isso está acontecendo¿. Só o silêncio era sua resposta. Chegando a casa de Maria explicou o que estava acontecendo e...
Por favor Maria, suplicou papai com os olhos cheios de lágrimas. Cuide bem dela.
E voltando para casa papai sentia-se triste e desolado. Chegando em casa  sem falar nada acaricia o rosto de mamãe que está deitada. E com um nó na garganta, não sabia o que fazer para ajudá-la.
À medida que o sol ia se escondendo atrás da serra, mamãe ia ficando inquieta e chorosa. Quando à noite chega o seu desespero aumenta.
Papai não consegue dormir muito preocupado.
As horas vão passando, papai cansado acaba adormecendo.
Sem que ele perceba mamãe levanta de mansinho e sai.
Na escuridão da madrugada, o que iluminava eram as estrelas no céu.
Em se sono leve, papai desperta e vendo que mamãe não estava na cama, sai porta a fora gritando por ela.
“Nina! Nina! Onde está você¿  Nenhuma resposta.
Saiu mato adentro à procura de mamãe.
Seu espanto foi grande, quando de longe ouviu alguém chorando.
E aquele choro foi chegando próximo e viu mamãe dentro de um buraco, aos prantos e com o vestido de Fátima nas mãos secando as lágrimas, falando que queria a filha.
Na madrugada papai a tomou em seus braços e ainda sob a claridade das estrelas leva mamãe para casa.
Ele só queria que o dia amanhecesse logo.
Mamãe só chorava e pedia a filha.
No dia seguinte, logo cedinho, papai vai até o vilarejo buscar Fátima, que tão pequena não sabia o que estava acontecendo.
Papai, perdido em seus pensamentos, cansado pelo trabalho na roça, mas ainda tinha forças e um autocontrole muito grande.
   O bebê estava com sete meses e mamãe estava muito doente.
Papai começou a levar ao médico na cidade de Triunfo. Muitos remédios para ela tomar. Os cuidados eram vinte e quatro horas. Qualquer descuido mamãe saia para os matos. Toda medicação tinha que ficar escondida. Pois se deixasse ela queria tomar todos de uma só vez. Papai não conseguia dormir direito nem podia trabalhar longe de casa.
Dos sete filhos a mais velha era Socorro com quinze anos, que ajudava papai nos afazeres de casa e
toda atenção maior era para mamãe.
Algumas vezes tínhamos a impressão de que mamãe estava bem. Por alguns instantes ela lembrava que tinha um filhinho, e que os outros também eram seus filhos.
Lembro-me que havia dias em que papai não ia trabalhar, pois tinha que cuidar de mamãe. Nesses dias só os dois meninos de treze e doze anos iam para roça.
   Dia 26 de março de 1966 um sábado. Mamãe amanheceu bem, tomou banho, falou para papai que estava se sentindo melhor. Era notável que ela estava bem. Papai fica feliz por vê-la assim.
Logo, chama os meninos para limparem a roça perto de casa.
Eu, Socorro, Zezinho e o Roberto de um ano ficamos em casa.
Fátima de três anos estava Maria no vilarejo.
Mas o desejo de ficar sozinha fez com que mamãe chamasse a filha mais velha.
- Socorro, por que você não vai passear um pouco¿ Hoje eu estou bem e pode ir sem se preocupar.
Vá para casa da sua madrinha.
- Não mamãe! Não quero sai.
Mamãe continuou insistindo e lançou um olhar receando que os pensamentos ruins que lhe atravessavam o cérebro fossem percebidos por Socorro.
Com apenas quinze anos, mas com muita responsabilidade, Socorro pensou um pouco. Mas com a insistência de mamãe resolveu ir à casa da madrinha. Foi com a intenção de voltar logo.
Era isso que mamãe queria. Seu plano estava traçado.
Eu, com nove anos, Zezinho de quatro e Roberto de apenas um ano, ficamos em casa.
Logo que Socorro saiu, mamãe me chamou. Eu fingia não prestar atenção.
- Filha!... A voz alta fez com que eu olhasse para ela com medo.
E me dando ordem...
- Vá com os meninos para casa da sua tia Inácia. Brinque lá com eles, pois eu quero descansar.
Meio temerosa retruquei.
– Não mamãe, eu fico com eles no terreiro ou no quarto da sala e não vamos fazer barulho.
Mamãe colocando as mãos na cabeça gritou:
-Vá logo, eu estou mandando!
Não tive outra saída a não ser obedecer.
Vesti meu vestido de chita azul, coloquei Roberto em meu colo, segurei o Zezinho pela mão e saímos para casa da tia Inácia que ficava bem próximo. O que separava as casas era uma cerca de a veloz.
   Mamãe havia planejado tudo o que queria fazer. Tomou banho, colocou sua melhor roupa, uma saia estampada de flores vermelhas e cor de rosa e uma blusa também estampada. 
Minha avó Luzia, mãe de mamãe, morava pertinho e por volta das onze horas da manhã, foi em casa como fazia sempre todos os dias.
Chegando na porta da cozinha...
- Nina! Nina! Ninguém responde. Entrou e continuou chamando. – Nina! Nina! E nada...
No corredor, olhou nos quartos, mamãe não estava.  E no silêncio daquela casa, segue até a sala e tão grande foi seu espanto quando viu mamãe pendurada em uma corda em um torno de armar rede.
Minha avó deu um grito tão alto e assustador que papai e meus irmãos que estavam na roça ali perto de casa ouviram e foram correndo.
Quando papai entrou em casa, ficou desesperado. A única solução rápida foi cortar a corda, mas já era tarde, mamãe estava morta.
O desespero tomou conta de todos.
Imediatamente, Naldo foi ao meu encontro na casa da tia Inácia e chorando falava:
“Perdemos nossa mãe.” “Perdemos nossa mãe”.
Eu, com apenas nove anos fiquei assustada, não entendia o que estava acontecendo e fui correndo para casa.
Papai me abraçou chorando. As lágrimas banhavam seu rosto. Triste ver minha mãe morta no chão.
Minha avó e meus irmãos do outro lado também chorando.
Imediatamente a casa foi enchendo de parentes, amigos e vizinhos.
Logo mamãe estava em cima de uma cama sendo coberta com um lençol branco.
Fátima, a pequena de três anos, sempre queria descobrir o rosto de mamãe. Levantando o lençol, olhava para seu corpo inerte e com um jeito bem nordestino falava: “Hein! Hein! mamãe não come mais angu”!  
Roberto o bebê, engatinhava, procurando e chamando mamãe em todo lugar da casa.
Aquele dia ficou para sempre em minha memória.
À noite, as pessoas com velas e lamparinas acesas.
O velório em casa, mamãe numa cama de solteiro sendo velada.
Amanheceu! Aquele cheiro de rosas, mamãe sendo levada para o cemitério.
As andorinhas na torre da igrejinha voavam lentamente, enquanto o sino tocava o sinal anunciando que ali estava chegando um corpo para ser sepultado.
Era de costume, antes e sepultar alguém passar na igreja para fazer orações.
   Antes do sepultamento, muita tristeza e choro. Em fim mamãe coberta com aquela terra vermelha. Muitas flores colocadas em seu túmulo.
Papai, com aparência muito triste e cansada, seu coração tentando suportar a dor. Naquele instante a peça principal da família estava sendo deixada ali para sempre. O seu grande amor.
Pouco a pouco todos iam se retirando
Ficando ali a soluçar papai e os  sete filhos.
Papai, homem forte, de garra, mas com uma profunda incerteza do amanhã. Seus olhos cansados estavam vermelhos de chorar.
    De volta para casa, no sítio Paus Brancos. Caminhos cheios de ladeiras, espinhos e pedra. O silêncio nos fazia companhia.
Manhã linda de céu nublado e acinzentado.
Tudo muito calmo, nem o vento balançava as folhas. Parecia entender que o coração de papai e dos filhos precisavam de silêncio naquela caminhada até chegar em casa.
O cheiro de rosas ainda se fazia presente.
O infinito e grande amor de papai pelos filhos contribuía muito para nos confortar. O nosso amor e respeito por ele também contribuía para o seu consolo.
 O dia passou. O sol já se escondendo
atrás da serra. Logo a escuridão junto a profunda dor e a primeira noite sem Mamãe.
 Socorro, eu e o bebê fomos dormir na casa de vovó Luzia. Deitados na mesma cama em que mamãe foi velada. Eu não conseguia dormir. Sentia a presença de mamãe. A todo instante sentia que ela vinha mexer comigo. O escuro me fazia sentir muito medo. Muitas vezes gritava por vovó Luzia.
- Mãe Luzia! Mamãe está aqui  comigo. A lamparina era acesa e mãe Luzia ia até o quarto. Quando apagava a lamparina eu começava a chorar, não deixando ninguém dormir. Meu tio Assis tentava consolar-me. “Não tenha medo”! Durma em minha rede que eu vou dormir na sala.
E deitada na rede no mesmo quarto em que estava minha irmã. Senti a rede balançar a noite inteira. Na minha inocência achava que era mamãe me acalentando.
Por que isso estava acontecendo¿
Não disse nada a ninguém sobre a rede balançar a noite inteira...
Amanhã... Amanhã será outro dia. Quem sabe eu rezando, não sentiria mais medo.
     
                              VIDA SOFRIDA NO SERTÃO SEM MAMÃE
   Dia seguinte... Papai desolado. Imagino pensando: COMEÇO DO FIM DOS SEUS SONHOS...
E agora... Sete filhos, todos menores, um bebezinho, e agora? Mas a vida tinha que continuar. Quantos sonhos perdidos!
Dia após dia, todos tristes, mas tentando viver... Um precisando do outro. Os filhos precisando do papai e papai precisando dos filhos. Tinha que ser forte.
A mais velha, Socorro de 15 anos, cuidava dos pequenos, enquanto papai, Naldo e Gino iam para roça.
  Os dias passavam lentamente. Papai triste, ás vezes chorando, mas tentando ser forte, pois a vida até então já era cheia de tantas dificuldades e agora sem mamãe tudo se tornaria mais difícil. Todas as noites meu sono era agitado, povoado de imagens ao lado de mamãe.
Acordava sobressaltada, meu coração disparado não me deixava respirar direito.
Sonhava com mamãe que pedia ajuda. Aos gritos ela pedia... “Filha, tire-me daqui... Salve-me”.
Em meu sonho eu levantava uma pedra e via mamãe dentro de um buraco cheio de fogo. Abaixava-me tentava segurar a mão de mamãe, mas não conseguia. As chamas eram tão fortes que, na tentativa de segurar sua mão sentia uma quentura muito grande e eram inúteis minhas tentativas. O sonho foi tão impressionante que demorei alguns minutos para entender que tinha sido um sonho. Seu pedido de ajuda foi tão desesperador e real que pelo resto da noite seus gritos ecoavam em meus ouvidos.
Ao amanhecer, comecei chorar sem parar. Papai e Socorro perguntando o que houve. As lágrimas não permitiam que eu falasse qualquer palavra. Tentando me acalmar, papai me abraçava com ternura.
Quando me senti mais calma, contei o sonho que tive.
- Filha, não chore mais, foi só um sonho. Dizia papai.
Ficava com muito medo quando anoitecia e apagava-se a lamparina e na escuridão do quarto tinha que dormir.
Vez em quando acordava assustada, sentindo a presença da mamãe.
Se dormisse em rede, mamãe estava sempre a me embalar. Sua presença era muito real.
   Os dias passavam e o medo ia se afastando de mim.
As noites na escuridão de casa, já conseguia dormir mais calma mesmo sentindo a rede balançar. E muitas vezes  ouvia a voz de mamãe cantando.
Sofríamos muito sentindo a falta dela.
Nossa única razão de viver era papai que nos amava muito e lutava pela nossa sobrevivência.
Meus sonhos com mamãe eram constantes.
  Cinco meses após a morte de mamãe, Socorro de 15 anos, que já namorava um rapaz da Paraíba, resolveu casar-se. Mas papai não concordava com esse casamento. Por ela ser muito nova e por ser ela quem cuidava dos pequenos enquanto ele  trabalhava.
A luta era muita grande para uma jovem de apenas 15 anos.
Tinha que cuidar da casa, de três crianças, cozinhar no fogão a lenha, lavar roupas no riacho, buscar água nas cacimbas e muitas outras coisas.
Seu noivo Antonio que morava em Santana de Mangueira na Paraíba  resolveu encontrar um jeito de levá-la embora.
Socorro, apaixonada aceitou fugir.
Certa tarde, enquanto papai ainda estava na roça, Socorro fingiu que ia buscar água no riacho  que de costume ia todas as tardes.
Tudo já estava combinado com Antonio que a esperava para levá-la embora em um jipe.
Deixando a lata d'água na beira do caminho, subiu no jipe com o noivo e saíram numa velocidade muita alta.
Caminhos estreitos e cheios de buracos, o jipe quase cai em um abismo.
Mas Deus os ajudou... Eles estavam seguindo o destino deles.
Às vezes, Socorro murmurava para seu noivo. “Que pensaria mamãe se soubesse do seu procedimento.” E sentia um aperto em seu coração.
“Quando a pedi em casamento nunca imaginei semelhante situação. Pensei que a vida transcorreria tranquila”. Dizia Antonio acariciando o rosto de Socorro.
Uma sensação de culpa e prazer invadia Socorro quando o jipe que a conduzia pelos caminhos até Santana de Mangueira afastou-a dos olhares dos familiares e vizinhos.
Agora não haveria ninguém que pudesse interferir ou censurar  seus planos.
Estava em busca da sua felicidade ao lado do seu grande amor.
   Naquela tarde, para papai foi como se tivesse recebido uma paulada em sua cabeça. Ele ficou desesperado. Foi mais uma grande perda. Ficou sem saber o que fazer.
Estava muito cansado. Sofria muito com a morte da esposa, e agora ia ficar sem a filha. Agora, quando mais precisava dela.
Uma nuvem escura cobria seu olhar, que agora fixava no vazio. 
Quando mamãe morreu, levou junto consigo seu o coração, deixando-o na
solidão.
Quanta falta mamãe fazia!
  Lembranças de uma vida que aumentava a cada dia a saudade.
Agora, só uma pergunta lhe calava a voz. Por que?
Muitas vezes ouvia papai falando sozinho se balançando em sua rede.
E em sua solidão às vezes se perguntava: Por que estou só? Por que Deus me levou a joia maior? Por que?
Suas palavras como tantas vezes, se perdiam no silêncio da noite.
O céu estrelado aumentava a dor da perda da amada. Precisava ser forte, mas encontrar forças onde? Quando saia á noite no terreiro de casa e olhava o céu estrelado, as lembranças faziam papai soluçar. Soluços que por várias vezes engolia para que nós não percebêssemos.
Mas eu ficava sempre muito atenta a qualquer movimento que papai fazia e percebendo a sua angústia e de mansinho fui a sua direção. Pressentindo a minha presença lentamente me abraçou e um sorriso iluminou aquele rosto amargurado.
Logo chamou todos os filhos e sussurrando falou: “Filhos, vocês são meu porto seguro, e eu os amo muito”. Tomados de tanta emoção, por algum tempo ficamos calados. Mas quando olhamos o rosto bondoso de papai entendemos o drama que ele enfrentava.
Os dias passavam, papai continuava muito triste, mas sem perder a calma. 
Sempre fomos muito pobres, mas o amor nunca nos faltou. O amor nos unia e nos dava forças. A vida sem mamãe estava sendo muito difícil.
Queríamos mamãe querida

Poder pintar-te em aquarela

O teu sorriso tão doce

A tua imagem tão bela.


Queríamos ter-te de volta mamãe querida!

Quanta falta nos faz...
Agora sem mamãe e sem Socorro para ajudar, estava sendo muito difícil para papai cuidar dos filhos e trabalhar para nos sustentar.
Meus avós paternos, vovô Hermínio e vovó Tereza que moravam no Sítio São José de Pilotos tinham muito amor por nós e sentiam uma necessidade enorme de nos ajudar.
E foram no sítio Paus Branco falar com papai.
- Tindá, meu filho... Leva as crianças lá para casa e vamos morar todos lá.
Papai chorou de alegria ouvindo seus pais falando isso. Pois foi nesta mesma nesta casa que papai nasceu e cresceu.
Com meus avós ainda morava uma filha solteira. Tia Alzira.
   Imaginem vocês... Numa casinha simples, humilde e muito tranquila no meio da roça, onde moravam apenas três pessoas, de repente chegarem sete. Papai e Seis filhos.
Foi uma grande transformação dentro daquela casa.
 
Casa de tijolos sem reboque e sem forro. Telhado mal acabado; quando chovia as goteiras pingavam e molhavam toda a casa. Cozinha, onde o fogão a lenha ocupava quase a metade do espaço, infestando o ambiente de fumaça.
E quando os gravetos estavam queimando, as labaredas surgiam e diminuía um pouco a fumaça. 
Vovó, com os olhos vermelhos, cheios de lágrimas ajeitando os gravetos e assoprando o fogo para que as chamas não apagassem.
As panelas feitas de barro em cima do fogão. Uma cadeira encostada a parede, onde vovó ficava sentada observando a panela cheia de xerém para fazer o angu. De um lado, uma máquina de moer milho, do outro lado, um pilão.
Na sala uma mesinha com um rádio de pilha e um banco onde vovô e papai sentavam para descansar quando voltavam da roça.
Um quarto com uma cama de casal, um colchão cheio de palha de bananeira. Outro quarto com um baú para guardar as roupas. Nas paredes alguns tornos de armar redes.
Ao lado da casa um cajueiro antigo que servia de sombra no terreiro. Pilão para pilar o milho, máquina para moer. Assim era a casinha onde papai nasceu cresceu e todos nós fomos morar depois que mamãe morreu.    


r

                   
A vida continuava... Papai e os meninos na roça...
Eu ajudava vovó e minha tia Alzira indo para os riachos lavar roupas.
O sol ardendo na pele naqueles lageiros onde colocávamos as roupas para secar.
Ajudava também encher os potes com água que trazia das cacimbas que eram cavadas próximo ao riacho.
Quantas idas e vindas para encher os potes de barro subindo e descendo ladeiras com a lata na cabeça.
O capim seco e algumas borboletas me faziam ficar parada olhando o bater de suas asas coloridas voando aqui acolá.
Ficava fascinada vendo tanta beleza. Às vezes não via o tempo passar, imaginando como seria viver voando batendo as asas, felizes em um mundo sem tristezas, sem maldades, sem ambição, sem egoísmo...
Às vezes conseguia pegar uma borboleta e ficava olhando suas asas bem pintadas como se aquelas cores fossem uma aquarela cheia de pontinhos e riscos. Todo o dia ficava  nesse mundo de sonhos e fantasias.
  Com dez anos comecei estudar, fui para escola fazer o primário. ESCOLA REGINA PACCES. Dona Socorro, minha primeira professora. Orgulhosa em ir para escola. Só tirava boas notas. Pois nunca tinha ido a nenhuma escola, mas já sabia ler e escrever.
Nesta época um circo veio para o Vilarejo Santa Cruz da Baixa Verde. “Xangai Circo”. Do Sítio ouvia-se a difusora anunciar as atrações. A vontade de ir assistir ao espetáculo era muita, mas não tinha dinheiro para pagar o ingresso.
Mas, passava horas nas roças catando mamonas para vender até conseguir a quantia para pagar o tal ingresso.
   A primeira noite no circo. Que maravilha! Meu coração pulava, meus olhos brilhavam  quando vi o palhaço “Pileke Lek” se apresentar. O palhaço parece que percebeu que era a primeira vez que eu estava ali. E vendo a minha felicidade  me chamou para o picadeiro .  Segurando a minha mão subi no picadeiro de chinelos de dedos e ali o palhaço brincava comigo vendo toda minha alegria. Ah! Quanta felicidade!
Tudo aquilo me fascinava. O palhaço, as bailarinas, os mágicos...
  Papai continuava a luta em busca do “tal Benefício”.
Eu já tinha quase doze anos já sabia ler e escrever.  Preocupada em ajudar falei para papai:
- Vou escrever para o Presidente da República para ele ajudar o senhor.
Papai riu me abraçou e falou:
-Jamais alguém lá em Brasília alguém vai ler sua carta, minha filha!. Mas não custa tentar. E disfarçando riu outra vez.
Naquela mesma hora peguei meu caderno e a caneta e comecei escrever em nome do papai e contando a sua história, a sua luta e que ele necessitava muito deste benefício.
E assim escrevi e papai foi em Triunfo colocar minha carta no correio.
A carta foi escrita no dia Trinta de Dezembro de 1968.
Em Março de 1969, papai recebe uma resposta que dizia assim:
   
 
  1970... Ano horrível a pior seca do nordeste. Ano em que passávamos fome mesmo. Quem nunca sentiu, não sabe o que é... Nem imagina o que é dormir de estômago vazio e acordar sem ter o que comer.
Naldo e Gino nas frentes de trabalho tentando trazer alimentos  para os que estavam em casa. Difícil, Horrível, não vale nem apena comentar.
1971... Nada de papai receber o benefício tão esperado.
   Mas o acaso acontece sem a gente saber o que nem por que.
Como diz o ditado... O que é fácil desconfie...
   Certo dia, estando papai na sua luta na lavoura, eis que chega um senhor se apresentando como colega de Guerra e que veio para ajudar papai receber o benefício tão esperado. Pois ele já recebia.  Ele tinha alguns defeitos como na perna direita e na voz. Dizia ele que adquiriu essas deficiências na Guerra.  
Começou fazer muitas perguntas sobre tudo o que papai lembrava sobre a guerra. O seu bom papo fez papai confiar em suas palavras.
A primeira vez veio conhecer e pegar informações e disse que logo voltaria para levar os documentos. Fez a lista de tudo que precisava e deixou com papai.
E assim fez, voltou um mês depois e convenceu papai entregar todos os documentos. Ele ficou dois dias conosco e foi embora.
O tempo passava e nada deste homem dar notícia. Não existia nenhuma informação dele.  Então papai percebeu que caiu em um golpe. 
  A vida era cheia de dificuldades, mas éramos felizes, sem medo e sem maldades.
   No dia em que fiz quinze anos, saí para levar almoço para papai e meus irmãos que estavam trabalhando na roça em um sítio São Mateus.
 Distante de onde morávamos.
Levei uma tigela de angu, outra de caldo e feijão, que vovó amarrou um pano. Coloquei na cabeça e saí
pelos caminhos estreitos, matos de um lado e do outro, ladeiras imensas.
Um riacho quase seco no início da ladeira. Aqui acolá uma casinha no meio das roças. Distraída, cantarolando, subindo e descendo ladeiras. Sem esperar, do nada ou não sei de onde eis que de repente surge do meio daqueles matos uma senhora de cabelos despenteados, grisalhos e vestido rasgado.
Começou correr atrás de mim, gritando que estava com fome e queria comer a comida que eu estava levando. Sai correndo ladeira abaixo, que o caldo de feijão derramou todo em minha cabeça molhando todo o meu cabelo. Parei um pouco, olhei para trás e a senhora não vi mais. Já havia desaparecido nos matos.
Cheguei à roça só com o angu, o caldo de feijão tinha derramado todo em meus cabelos.
Papai me vendo chegar com os cabelos molhados foi logo perguntando o que aconteceu.
E caíram na gargalhada quando contei a história da senhora correndo
atrás de mim.
Estava com medo de voltar e encontrar a senhora outra vez.
Armei-me com um pedaço de pau e voltei pelo mesmo caminho.
Sentindo-me receosa, mas estava atenta, sempre olhando de um lado e outro.
Mal respirava de alívio quando senti o coração pular de medo ao ver surgir por trás de um grande tronco uma menina com uma cabaça de água na cabeça.
O susto foi tão grande que, logo a menina surgiu, já joguei o pau que trazia para me proteger. A cabaça caiu e quebrou derramando toda água que a coitadinha conseguiu naquele riacho quase seco.
Assustada, a menina gritava.
“O que você quer? Por Deus, não me faça mal.”E escondendo-se atrás do tronco chorava. Seu rosto pequeno, olhos grandes, arregalados, onde o medo estampava-se em seu rosto.
Fiquei com pena dela e comecei chorar também. Como explicar para ela que eu estava com medo daquela senhora.
E agora, como a menina ia chegar na  casa dela sem a cabaça e sem a água.
Assustada saiu correndo sem falar mais nada.
Ei, diga-me seu nome!... Diga-me seu nome!... Eu gritava mais ela fingia não ouvir.
O contraste entre aquela senhora de vestido sujo e rasgado, cabelos despenteados e aquela menina meiga... Não entendia o que estava acontecendo.
Continuei meu caminho até chegar a minha casa. Fiz o mesmo caminho por várias vezes, sempre pensando em reencontrá-la. E nunca mais a vi...
  Era uma tarde quente de Dezembro.
Sentada em um lageiro, junto ao riacho que matava a sede de muita gente da redondeza. De repente, as nuvens mudaram de cor no céu, que antes era azul e límpido.
Em instantes cairia uma forte tempestade. Raios riscavam o céu. O arco Iris se formava todo colorido.
Ao longe se ouvia os trovões que se aproximavam.  O vento trazia o cheiro da chuva. Os pingos grossos acentuando a poeira e o mormaço quente subia com o cheiro de terra molhada.
Desde pequena, as tempestades faziam-me muito medo. Nesse dia tudo aquilo me fascinava.
Em plena tarde, a escuridão escondia o sol e o mundo ao meu redor se enchia de sombras, trazendo-me recordações de quando mamãe era viva.
Num jogo de lembranças via-me criança outra vez correndo no terreiro da minha casa, atravessando a cerca de a veloz.
Mamãe aflita, gritando;
- “Filha! O temporal está vindo, corra para casa. É muito perigoso ficar aí junto essa cerca”.
Quantas lembranças! Lembro-me do dia em que a tempestade veio com tanta fúria. Vento muito forte, trovões sacudiam o céu e a terra.
Desta vez tive muito medo e, sem coragem de correr para casa, fiquei parada junto à cerca e pus-me a gritar.
Quando um raio caiu próximo a mim derrubando um pé de goiabeira, mamãe me gritou desesperada.
Quando cheguei, molhada dos pés a cabeça e descalça, mamãe me pegou no colo e advertiu-me: “Não faça mais isso”!
Naquela tarde enquanto viajava no tempo com minhas lembranças estava muito feliz. Sentia que a natureza me protegia.
Continuei ali, esperando a tempestade passar. E conversando com o vazio, falando com a enxurrada, que quanto tempo aquelas terras estavam trincando de
secas sem ver chuvas.
A tarde continuava escura, mas no céu tudo se calou. Os raios sumiram, os trovões emudeceram.
Na minha cabeça, lembranças da minha infância se confundiam e eu começava a chorar.
Os pingos começaram a cair devagar
E misturaram-se com as minhas lágrimas.
Ainda perdida em meus pensamentos, escorregando aqui e ali, fui andando naquele caminho lamacento até chegar em  casa.
Vovó já me esperava ansiosa, preocupada comigo, sem saber o que tinha acontecido. Pois sempre que eu via se formar um temporal sentia muito medo.
Mas naquela tarde, me senti forte, sem medo algum. Eu estava encantada com tudo o que via.
A chuva trouxe-me lembranças tão preciosas que me desmanchei em lágrimas. Lágrimas de felicidade dos bons momentos ao lado de mamãe.
Que pena! Tudo isso passar e não volta mais. Nunca mais...
Só lembranças vivas, nítidas em minha memória... Nem o tempo irá apagar...
   Naquela redondeza, havia muitas pessoas analfabetas. Senhoras e senhores que trabalhavam na lavoura e que nunca tinham frequentado uma sala de aula. Pensando em fazer alguma coisa por elas resolvi passar de casa em casa e fazer uma lista de quem gostaria de estudar. Aprender ao menos assinar o nome.
Foi uma grande novidade para todos e logo muitos concordaram.
Com a lista em mãos, providenciei a arrumação da sala da minha casa. Meu avô comprou o quadro negro e coloquei na parede.
Na sala havia um banco com espaço para cinco pessoas, alguns tamboretes e uma mesa. Não dava para todos, alguns traziam seu banquinho.
Sob a luz da lamparina comecei ensinar aquela turma.
Senhores e senhoras e até jovens cansados do trabalho de sol a sol, mas davam a maior atenção ao que eu ensinava.
Muitos eu tinha que pegar na mão, pois não sabiam nem pegar no lápis.
As mãos calejadas, tentando escrever alguma letra tremida, mas com muita determinação.
A cada letra ou palavra escrita por eles via-se a felicidade estampada em seus rostos.
Era muito gratificante ver em cada rosto um sorriso de felicidade.
Alguns meses depois, muitos já sabiam escrever seu nome. Logo fiquei conhecida como a “professorinha da roça”. Dava tratos a imaginação para fazer todos entenderem.
   Nos meses que se seguiam, uma dor apertava-me o coração: logo teria que parar de ensinar-lhes, pois vovó estava muito doente.
Meu coração elevou a Deus um agradecimento pelo bem que tinha me feito. Por um instante deixei escorrer o pranto em meu rosto.
Quando o sol começava surgir atrás da serra eu estava ao lado de vovó que mal podia me consolar, pois já  sabia ela o motivo da minha tristeza.
E olhando para aquela serra onde o sol nascia uma ideia entrou em meu coração.
Haveria a possibilidade de conversar com o Sr. José Antonio, dono daquela casinha.
E resolvi ir até lá. Sr. José Antonio estava sentado em um banco na porta da casa com um cigarro entre  os dedos e um chapéu de palha na cabeça.
A Sra. Joana sua esposa estava varrendo o terreiro e veio participar da conversa.
Falei que gostaria de continuar ensinando e que a casa dele tinha uma grande sala. Ele já conhecia a minha história. A ideia foi recebida com aprovação, pois eles também gostariam de estudar.
Saí feliz avisando a todos que eu ia continuar ensinando na casa do Sr. José Antonio na Serra dos Nogueiras.
Assim tudo ficou acertado e as aulas continuaram.
Alguns desistiram, pela distância.
Todas as noites voltando e descendo a serra, a alegria daqueles senhores, senhoras e jovens cantando e correndo na escuridão dos caminhos.  Naquela escuridão só ouvíamos o cantar dos grilos e sapos na beira do riacho.
Mas um canto diferente vindo de longe às vezes nos chamava atenção.
Era um canto triste e selvagem,
Um riacho cortava a chapada e a serra.
Na chapada à beira do riacho, alguns pés de bananeira e goiabeira.
A claridade da lua e das estrelas  é  que nos conduzia naqueles caminhos ladeira a baixo.
E assim ensinei durante seis meses.
   Com meus quinze anos ainda, soube que em Santa Cruz uma professora veio ensinar Admissão. Gostaria muito de estudar, pois até então só tinha a quarta série do primário. Mas infelizmente não consegui vaga.
No segundo semestre houve uma desistência e eu fiquei em seu lugar.
Tinha que me esforçar muito para acompanhar os que já haviam estudado o primeiro semestre.
Logo nas primeiras provas tirei boas notas e fui me acostumando com todos da classe.
Sabia que aquele ano de 1972 seria o meu último ano na escola. Pois o Ginásio só tinha em Colégio particular em outra cidade. E só os que tinham posse é que estudavam no Colégio STELA MARIS em Triunfo PE.
Muito triste por saber que não iria continuar meus estudos, todos os dias chorava na sala de aula.
Dona Lourdes, minha professora não sabia porque eu chorava tanto e me perguntou:
- Por que você chora tanto?
De cabeça baixa e muito tímida respondi:
Choro porque sei que não vou mais estudar.
“Ah”! Exclamou ela pensativa. E ao mesmo tempo forçando um sorriso disse: “Calma, quem sabe um dia possa continuar seus estudos”.
- “Não chore assim! Não chore” E com um gesto carinhoso, passou a mão em meu rosto. Quanto mais ela falava, mai eu chorava.
Os dias foram passando e chegou o último dia de aula. Terminava o ano letivo, passei em primeiro lugar e ganhei um lindo presente.
Dona Lourdes já havia contado para seu pai Sr. Antonio da minha vontade de continuar estudando. Ele, pessoa de bom coração por sua vez foi até o Colégio Stella Maris conversar com a Diretora sobre mim.
A madre superiora Irmã Gerwicks, falou que eu ganharia uma bolsa, mas tinha que fazer uma prova.
Quando soube disso fiquei tão feliz que meu coração saltava de contentamento.
Eu... Será que eu menina tão pobre iria conseguir estudar no Colégio Stella Maris?
197   Quanta felicidade, passei na prova. Ganhei uma bolsa de estudo no Colégio iria fazer o Ginásio.
Feliz da vida com o coração cheio  de esperanças, a cabeça borbulhando em sonhos. Mas algo me preocupava.
Como comprar o material¿ E o uniforme?
Papai não tinha dinheiro, mas me acalentava. “Filha, você já conseguiu a bolsa, o resto a gente dar um jeito”.
O sonho de continuar os estudos estava sendo realizado. Dona Lourdes havia estudado no Stella Maris e ainda tinha o uniforme e mandou fazer alguns ajustes para que eu usasse.
Saia azul-marinho, blusa branca, sapatos pretos e meias brancas.
O material papai e vovô compraram.
O sítio São José de Pilotos onde eu morava, ficava distante do Colégio Stella Maris em Triunfo. Como não tinha dinheiro nem para comprar um lanche, eu ia e voltava a pé. Eram seis quilômetros para ir e seis para voltar. Eram doze quilômetros por dia que eu andava. Daquela redondeza só eu ia à pé.
As meninas do vilarejo iam de carro fretado, pois tinham condições.
Os carros passavam e só deixavam poeira para trás. Mas o meu sacrifício valia muito a pena.
Às vezes me sentia cansada e com fome e muitas vezes parava para descansar.
Sozinha naquela estrada, mato de um lado e do outro, vez em quando passava um carro levando as colegiais.
Muitas vezes cansada pensava:
Ah! Se alguém parasse e me desse uma carona... Mas nada, continuava ficando para trás engolindo poeira.
sentia forte a cada dia.
E assim observava e vivia a vida sem entristecer-me.
Vegetação seca, poeira vermelha não eram novidade para mim. Tudo isso era tão natural como o ar que eu respirava e a água que eu bebia.
Com a poeira o meu uniforme ficava muito sujo e chegava ao Colégio suja.
Dona Lourdes e Sr. Antonio que moravam próximo ao Colégio, me propuseram deixar meu uniforme na casa deles. Assim chegava ao Colégio e assistia às aulas com o uniforme limpo.
Assim eu fiz, ia com uma roupa e na casa de dona Lourdes colocava meu uniforme.
Quando chovia, as estradas transformavam-se em lama Os carros não passavam, eu que ia à pé não faltava às aulas.
Nos dias de chuva as meninas do vilarejo que iam de carro faltavam às aulas.
   Certo dia desses chuvosos, a primeira aula era da Irmã Superiora, Irmã Gerwicks. Na chamada de presença já se sabia que nenhuma aluna chegaria devido as estradas lamacentas.
Uma colega, Elizabete, sabendo que eu ia e voltava a pé, falou para Irmã Superiora:
-“ Irmã Gerwicks, não coloque falta em Maria do Carmo, que ela vai chegar. Logo ela estará aqui. Tenho certeza. Ela não vem de carro, ela vem a pé”.
O espanto da madre Superiora, quando de repente antes de terminar a primeira aula eu entrei na sala.
Fui me explicar com ela, mas ela não me deixou falar e completou:
“No intervalo me procure na Diretoria, preciso falar com você.”
Fiquei apreensiva, pois achava que ia ser advertida por ter atrasado.
No intervalo fui até a diretoria, toda tímida e receosa. Entrei e lá estavam Irmã Gervicks e Irmã Rafaela.
 Sente-se, Irmã Gerwicks falou em voz firme.  E logo me perguntou:
É verdade que você vem e volta a pé todos os dias até o Colégio?
- Sim Madre, é verdade. .
Naquele instante Irmã Gerwicks abriu uma gaveta e de lá tirou um pacote de dinheiro e me entregou.
- Pegue esse dinheiro, procure uma vaga em um dos carros que trazem as meninas e não venha mais a pé.
Esse dinheiro dar para você pagar o transporte até o final do ano.
Nunca tinha visto tanto dinheiro.
Não sabia nem como agradecer, pois já havia ganhado a bolsa e agora ganhei também o dinheiro para o transporte. Sai da diretoria com os olhos cheios de lágrimas.
Naquele dia cheguei em casa falei com papai e entreguei o dinheiro para ele. Papai guardou aquele dinheiro como se fosse o maior tesouro.
Na mesma tarde fui até o vilarejo conversar com os donos de carros para conseguir vaga.
No dia seguinte lá estava eu, na beira da estrada aguardando o carro para me levar ao colégio.
Toda satisfeita junto as meninas, colegas de colégio ou de classe, que quantas vezes passaram por mim me deixando para trás.
Talvez nem me enxergassem, pois até no vilarejo quando eu passava por elas não me percebiam.
   A minha gratidão era tanta que despertou em mim o desejo de ser freira. Achava o Colégio o meu paraíso. De tanto falar para uma e para outra, certo dia a Madre Superiora veio falar comigo.
No final do ano letivo de 1975 agendaram uma reunião com meu pai para o dia 07 de janeiro de 1976.
Mas meu irmão Naldo que já morava em São Paulo estava a passeio de férias conosco e me convidou para ir morar em São Paulo.
Agora a dúvida tomara conta do meu coração.
A vontade de ir para o Colégio e ser freira, ou ir para São Paulo trabalhar.
Alguns dias antes do Naldo voltar para São Paulo tomei uma decisão e falei:
Estou disposta a ir com você meu irmão. Talvez eu não tenha vocação para ser freira.
A passagem foi comprada para o dia 07 de Janeiro de 1976. E 07 de Janeiro seria o dia da reunião com meu pai no Colégio Stella Maris.
Não tive coragem para ir lá pessoalmente conversar com as freiras e viajei sem dar nenhuma satisfação.
                    SÃO PAULO E A RECONSTRUÇÃO DA minha VIDA

  
 E dia 07 de Janeiro de 1976, estava eu deixando papai, meu herói, meu guerreiro, meu lar paterno.
Era com se tivesse abandonando uma formosa mansão.
Afinal de contas, entre tantas dificuldades, mas eu era muito feliz.
Meu coração estava muito apertado, sentia-me dividida dentro daquele ônibus.
Da poltrona onde estava, olhando pelo vidro, sentia a tristeza de papai.
Querido papai! Acenava chorando. Mas sabia que em São Paulo eu poderia trabalhar e ganhar algum dinheiro e ajudá-lo.
Como queria sair daquele ônibus correndo, abraçá-lo e voltar para sua companhia.
Como eu queria voltar para SÃO JOSÉ DE PILOTOS EM SANTA CRUZ DA BAIXA VERDE.
Pois foi ali que nasci e aprendi o quanto é difícil para um NORDESTINO pobre.
Nós éramos muito pobres, mas dignos, e foi essa dignidade que nos obrigou a fazer essa escolha.
Depois de quase três dias de viagem, cruzando o Brasil, quase de ponta a ponta, cheguei em São Paulo no dia 09 de Janeiro de 1976. Chovia e fazia muito frio. Tudo era estranho, muito estranho.
    Encerrava-se um ciclo da minha vida e imediatamente iniciava-se outro. Nunca imaginei vir para São Paulo, no entanto estava EU aqui.
Minha mente era um amontoado de Lembranças e saudades de tudo o que deixei para trás.
Logo no dia seguinte escrevi uma carta para Irmã Gerwicks me desculpando e falando da minha vinda para São Paulo.
Dia após dia, trabalhando, sentindo-me feliz. Vez em quando ajudava papai com algum dinheiro.
Ah! Como tinha medo quando ouvia notícias e violência. Mas pouco a pouco fui acostumando a agitação da cidade grande.
Logo voltei estudar e procurei melhor emprego.
Tirando as minhas férias, viajei para visitar papai em Santa Cruz.
Quanta saudade! Tudo continuava igual.
A casinha simples, o velho cajueiro, que tantos frutos nos deu.
Cajueiro, cajueiro, só eu sei o que senti, quando cheguei à sua sombra onde tantas vezes descansei.
Cajueiro, cajueiro, fui e demorei voltar.
Ah! Que saudade de tudo que aqui passei.
Abraçada a seu tronco, me vi pequenina, brincando de esconde, esconde, como fazia quando criança.
Seu lindo e gostoso fruto, hoje sinto o mesmo sabor.
Um mês depois voltei à São Paulo e me correspondia com papai por carta.
   Doze anos sem mamãe. Meus sonhos com ela continuavam.
Certa noite, sozinha em meu quarto, desliguei a televisão deitei-me, cobri-me da cabeça aos pés e tentava dormir, mas o sono não vinha.
Entre um pensamento e outro, senti que alguém sentava na cabeceira da minha cama e puxava a ponta do cobertor que cobria a minha cabeça.
Na escuridão daquele quarto, abri os olhos e vi mamãe sentada e falando comigo. Sua voz nítida em meus ouvidos, mas seus lábios não se mexiam.
DIZIA: “Filha! Vim aqui para falar que esta é a minha última missão aqui na terra. A partir de hoje nunca mais você vai sonhar comigo. NUNCA MAIS,”
Assustada e trêmula ouvia tudo que mamãe me falava. Aquela voz foi sumindo e se calou. Como se fosse uma eterna despedida, levantou e desapareceu.
Foi tão impressionante que demorei alguns minutos para entender que estava em minha cama.
E imediatamente procurei me levantar.
Foi então que percebi que não estava sonhando. As pernas tremiam sem forças e não consegui ir até o interruptor da luz para acender.
Aos poucos fui tomando consciência do que me acontecera. Meu coração palpitava, eu chorava feito uma criança.
Logo meu irmão chegou e me vendo aos prantos ficou assustado.
Contei o que houve.
- “Você estava sonhando.” Falou Gino, meio desconfiado.
- Não! Eu não estava sonhando, mamãe esteve aqui comigo. Acredite!”
Fiquei algum tempo sem entender o que estava acontecendo. Abri a porta e sai. O céu estava escuro, mas de repente clareou como se a lua pudesse fazer o dia. Então meu coração acelerou de uma forma diferente. Percebi que algo muito especial havia acontecido.
Mamãe tinha vindo apenas para se despedir e me falar com carinho aquelas palavras.
Tive então a certeza de que eu não tinha imaginado nada, mamãe realmente esteve comigo.
Isto me tranquilizou.
   1977-Papai ainda em busca do seu benefício .
Por obra do destino ou não, certo dia papai foi para Caruaru – cidade de Pernambuco- e dentro de um ônibus quão grande foi sua surpresa quando viu aquele homem em sua frente.
Lembra aquele senhor que falei no início?
Imediatamente papai o reconheceu, pelas suas características não dava para se enganar.
Ali, a revolta tomou conta de papai. Foi em direção ao senhor e o segurou.
Depois dessa confusão descobriu-se que esse homem havia trocado as fotos dos documentos para tentar receber o benefício no lugar de papai.
Após tudo isso se iniciou o processo de aposentadoria. Agora só restava esperar. Mesmo que demorasse, agora uma réstia de esperança tomava conta de papai.
    1979 papai começa receber seu benefício. Muito feliz agora. Nesta época só o filho caçula de quatorze anos morava com ele. Todos os outros que estavam distante ficaram felizes por saber que papai agora tinha melhores condições e havia deixado de trabalhar na lavoura.
   Quando mamãe morreu, papai nos prometeu que enquanto tivesse um filho em sua companhia não iria casar.
E assim fez. Eu, Gino, Naldo, Zezinho, estávamos em São Paulo. Socorro e Fátima já estavam casadas. Cada filho lutando pelo seu sustento.
Logo economizou algum dinheiro  que deu para compra uma casa no Vilarejo em Santa Cruz da Baixa Verde. Levou seu pai e sua irmã Alzira para morarem lá.
O caçula fez dezessete anos e resolveu também ir para São Paulo.
  Após vinte anos viúvo, estava na hora de arrumar uma companheira.
Papai estava apaixonado por Da. Izabel, senhora também viúva, mãe de seis filhos. 
Alguns já casados outros foram morar com Dona Izabel na casa de papai.
Ficamos felizes por papai arrumar uma companheira.
 Quando vivíamos na companhia de papai éramos felizes, apesar das dificuldades e fome que passávamos.
Os dois irmãos pequenos Naldo e Gino, trabalhando na lavoura de sol a
Sol. Crianças que trocaram a infância pelo trabalho pesado. Trocaram os estudos pela roça.



                             O RECOMEÇO ATRAVÉS DO AMOR


       Em  uma tarde de sábado, do mês de Julho de 1979, eu estava em uma reunião de produtos de beleza com algumas amigas na casa de Hilda. Quando sem que eu esperasse entra um moreno e "Boa tarde meninas!" Hilda logo me apresenta. Muito tímida apertei sua mão e falei meu nome.
Ele fitou meu rosto, olhando dentro dos meus olhos, enquanto  eu segurava sua mão. 
Abaixei meu olhar até ele falar com um sorriso de conquistador:
"É um prazer conhecer-lhe, meu nome é Luiz Carlos".
Soltou minha mão e logo foi em direção a Hilda e cochichou  algo em seu ouvido.
Sentou em um banquinho ao lado da mesa e não disfarçava seu olhar em minha direção. Aquele olhar parecia me incomodar.
Enquanto o Luiz não tirava seus olhos de mim, eu desviava o meu 
rosto para a mesa onde estavam os produtos de beleza.
Nesse instante Luiz levanta e dar uma volta à mesa. E chegando perto de mim passa a mão em meus cabelos.
Com isso as meninas percebem que eu fiquei vermelha, e não consegui pensar em nada para responder aquele atrevimento.
Ele riu, abaixou a cabeça e murmurou em meu ouvido.
"Posso levá-la em casa?
Na minha ingenuidade e medo, falei. - Não!
- Acabei de te conhecer...    
- Bobinha! Não vou fazer mal nenhum a você.
E riu outra vez, parecia rir de mim.
Por fim Hilda fala:
Pode aceitar ele é boa gente. Já o conheço a tempo.
-Só aceito se você for junto. Falei sorrindo.
Assim aconteceu... Hilda entrou no carro comigo...  
Era um fusquinha. Hilda no banco de trás, eu na frente com o Luiz.
O trajeto era pequeno. Afinal eu morava próximo dali.
Luiz, rapaz bem arrumado, falante e prestativo.
Dirigia, mas sempre me olhando, me enchendo de galanteios.
  Em frente a minha casa ele parou o carro, dei tchau para Hilda e quando fui dar tchau para o Luiz ao invés de beijar  meu rosto seus lábios tocaram os meus, impedindo que eu falasse qualquer coisa. Empurrei seu rosto, mas ele fingiu não perceber. Continuou beijando meus lábios de uma forma que nunca senti.
Então fechei meus olhos e me entreguei aquele beijo quente, que eu não conhecia. Mas fiquei parada, esperando que ele me soltasse falasse alguma coisa. Por alguns minutos ele me soltou, olhou para mim e sorriu. Quando olhei para Hilda, a coitada estava paralisada. Respirei fundo, concentrei-me e pedi desculpas. Antes de sair o Luiz fala; Pense em mim. Pois eu estarei sempre pensando em você.
    Depois deste episódio fiquei um mês sem ver o Luiz, só sabia dele através da Hilda, pois trabalhávamos na mesma empresa.
Certo dia Hilda me convida para ir à praia com sua irmã Fátima e sua amiga Maria. De imediato falei que iria, pois não conhecia a praia. Quem iria nos levar era o Luiz. 
   Domingo cedinho estávamos, eu, Hilda, Fátima e Maria no carro do Luiz a caminho da praia. Fui no banco de trás com Hilda e Fátima. Maria foi na frente com o Luiz. Desde que nos beijamos não nos falamos mais. 
  Chegamos a praia, eu estava um pouco envergonhada coloquei meu biquíni preto. Pela primeira vez me senti mal ao lado de tanta gente tomando sol. Mas pouco a pouco fui me descontraindo.
   Andando de encontro às ondas do mar, ouvi a voz suave de Luiz que surgiu atrás de mim em meio aquele barulho das ondas. Segurou minha mão e me levou para o mais fundo do mar.
Sentindo medo...Recuei.
-Não tenha medo, não vou deixar que nada lhe aconteça.
- Em meio aquelas ondas, ele me trouxe nos braços e me beijou, como havia feito no carro.
Desta vez fiquei assustada. A brusca pressão dos seus lábios me tomava o fôlego. Parece que o  tempo era pouco para nós.
Sentíamos muito à vontade um com o outro e fomos dar uma volta na beira da praia. Eu tagarelava muito animada com o Luiz ao meu lado. Sua mão firme em minha cintura, me apertava sempre mais para perto dele.
Não sabia se estava fazendo a coisa certa ou errada. Só sei que estava feliz. Por alguns segundos parecíamos duas crianças passando naquelas ondas sem pensar em nada. 
Passamos a tarde na beira da praia fazendo castelo de areia sem compromisso.
O dia terminara, era chegada a hora de pegar a estrada de volta.
Chegando me despedi das meninas e do Luiz.
  Agora em tinha que esperar. O que passava na mente do Luiz, só ele sabia.  Naquela noite não conseguia dormir. Meu pensamentos eram só no Luiz. E agora? Será que ele demoraria me procurar?
Ah! Mas, dois dias depois, quando a lua iluminava o céu, olhando pela janela vi, os faróis de um carro parado em frente a minha casa. Uma leve batida na porta.
- Sou eu...Disse o Luiz falando mansinho enquanto eu abria a porta. Meu coração acelerou, eu não estava  acreditando.
Ele começou falar alguma coisa, eu toquei seus lábios e sua voz se calou em minha boca com um longo beijo.
O jeito como ele me olhava me fazia tremer. Combinamos ir ao cinema no final de semana.
Logo o Luiz foi apresentado ao meus irmãos.
Então começamos namorar...
    Na minha adolescência ficava sonhando com um homem maravilhoso que chegava de não sei onde. Muitos olhavam para mim, poucos se aproximaram , mas nunca ninguém chegou  tão perto do meu sonho. Somente ele...e ele chegou para que eu deixasse de sonhar e vivesse uma realidade.
  Um ano de namoro e casamos. Foi assim, num passe de mágica que minha vida mudou. Entre erros e acertos, estamos juntos até hoje.
Após cinco anos de casados nasceu meu filho. Tarde do dia cinco de Fevereiro de 1985. WILLY , menino de dedos longos, sorriso lindo. E começava assim, sob a luz deste sorriso, uma história de muito amor, de conquistas, de muitas lutas e muitas vitórias.
Willy, veio ao mundo com uma missão de transformar a minha vida. Com ele aprendi melhor a ver o mundo de uma  forma diferente. Com ele entendi melhor o significado da palavra AMOR.
Amamentei-o até os dois anos. Willy sempre foi uma criança muito calma. Passou pela  infância tão rápido que muitas vezes cheguei a lamentar. Mas a cada etapa de sua vida, enche minha vida de esperança, de muitos planos.
Sempre tem um gesto de carinho quando me ver triste.
Filho, você é um anjo que veio ao mundo para me proteger. Com você até o sofrimento se torna fácil de suportar. Às vezes me pego pensando como seria a vida sem você.
Lembro do bebezinho que a cada dia foi crescendo e hoje se tornou um homem de verdade.
Filho... Sei que você me ama muito...Mas meu amor por você é maior que tudo. Quero que continue sempre assim. Forte, de personalidade, honestidade e atitude.
Você é a família que eu e teu pai construimos.
Saiba que eu tenho um grande amor e desse grande amor nasceu um amor maior... VOCÊ... Meu filho... Willy Baptista.  
                        
                                       "Há alguns anos... :D""Parabéns, mamãe!! Te amo muito!!"
                        A Ausência DO HERÓI
   
    19 de Novembro de 2009, Viação Gol, voo 1768, às 23h 15. Aeroporto Internacional de Guarulhos. Eu, Gino e Roberto. Os três filhos de Tindá.
Na hora da decolagem, minhas mãos suavam frio. Mas a vontade de estar logo ao lado de papai superava o medo de andar de avião.
A notícia que papai estava doente me deixou aflita. Queria sair correndo.
Duas horas até Recife. Depois tinha que andar mais seis horas de ônibus até Serra Talhada, onde papai estava internado, na Casa de Saúde São Vicente.
  Um grande aperto em meu coração, quando entrei na sala de UTI e vi papai nos aparelhos e sem reação nenhuma.
  Segundo dia em que fui visitá-lo, a mesma coisa. Sem melhoras nenhuma. No quinto dia de visita, nos minutos que estive ao seu lado,fiquei conversando com ele.
Por alguns instantes, percebi que papai começava a respirar diferente.
Assustada, chamei a médica e perguntei o que estava acontecendo.
A médica me respondeu que ele estava me ouvindo.
Meu rosto se banhou em lágrimas de tanta emoção.
Havia falado bem pertinho ao seu ouvido: Oi papai, sou Carminha, sua filha querida.  Estou aqui porque te amo muito. Quero vê-lo bom para ouvir sua voz.
Apesar dos seus 89 anos, papai estava bem fisicamente. Um AVC o levou para um leito de hospital.
Enquanto estive em Santa Cruz, todos os dias eu ia até Serra Talhada para visitá-lo.
Mas infelizmente tinha que voltar para São Paulo e deixar papai no mesmo estado que encontrei.
Voo 1769... De volta a São Paulo. Em meu pensamento, só a imagem de papai na UTI. A vontade de ficar ao seu lado era muito grande. Mas querer não é poder. No avião da janela olhava as luzes das cidades que ficavam tão pequenas.
Que viagem triste!
Quinze dias após voltar de Pernambuco. Uma tarde de sábado, 12 de Dezembro de 2009, o telefone toca. Do outro lado da linha Gino fala:
- Oi irmã querida irmã! O fim chegou...  Nosso Herói não aguentou, não resistiu. Acabou... Caí em prantos, prantos que há muito dias já havia derramado. Sua missão estava cumprida. Seu dia chegou. UM HERÓI... UM GUERREIRO. Meu pai lutou, lutou muito, mas nem cansado estava.
  Aflito, meu coração palpita, eu soluço de ansiedade e tristeza. Tristeza de saber que nunca mais o verei.
Ninguém imagina o IMENSO AMOR nós tínhamos por esse guerreiro.
Nunca vai acabar... O fim nunca vai chegar.
Seu rosto sereno... Sua pele rosada.
   Meus olhos se fecham e enxergo meu velho em minha frente. Velho, velho, mas nem ruga tinha. Para mim
ele não morreu...
Continuo sendo sua filha querida. Certamente um dia estaremos juntos. Creio que não é preciso que seja imediatamente. Contudo, eu serei muito feliz ao lado dele.
Um pedacinho de mim foi embora. Pois todos os domingos eu tinha uma missão: ligar para papai, somente para falar EU TE AMO. E ouvi-lo repetir “EU TAMBÉM TE AMO”.
E agora vou ligar para onde? Falar com quem? Lá de onde ele estiver ele sabe que mesmo que eu desse todo o meu amor por ele, ainda sobraria muito para continuar amando até a eternidade. 
   Pergunto-me sobre a validade dos valores.
Enquanto trabalhava na lavoura, nada tinha. Passávamos necessidade.
E depois de trinta anos recebendo um bom salário e não deixou nada em seu nome. Nem a primeira casa que comprou no início da sua aposentadoria quando ainda tinha filho menor. E que morava ainda nela mesmo tendo transferido essa casa para terceiros. E tudo o que conseguiu comprar no decorrer da vida nada estava em seu nome.
Afinal para que explicação? Se nosso maior bem, nosso maior tesouro já foi embora?  
É uma longa história... Mas eu resumi em algumas páginas.

NUNCA CHEGARÁ O FIM

AMOR SEMPRE PRESENTE

   Dos sete filhos de Tindá, dois já não estão nesta terra. Os outros cinco filhos, vivemos bem. Orgulhosos de ser o que somos, pois sempre lutamos com honestidade, vivemos com humildade e dignidade.
   Amamo-nos e nos respeitamos muito.
   De uma coisa temos certeza enquanto existir AMOR entre
Os filhos de Tindá o FIM nunca vai chegar.
  Pois o que faz tudo chegar ao fim é a falta de amor, o egoísmo, a ambição...
  
Todas essas lembranças
Nunca podem morrer
Como um choro de esperança
De um neném que está para nascer.
São lembranças simples que guardo
Como o cheiro de uma flor
Nunca vou esquecer
Porque ninguém pode matar o AMOR
 
                                  COMEÇO DO FIM
Ao terminar esta história, deixo cair uma lágrima AO SABER QUE OS DIAS PASSAM DEPRESSA.
Não se percebe que a vida também passa. Ás vezes nem nos damos conta.
QUANDO Nos DESPERTAMOS, JÁ SE PASSARAM MUITOS ANOS DE NOSSAS VIDAS.
E O QUE FIZEMOS? O QUE VAMOS FAZER ? QUANTA Correria Em busca de que?
Tudo chega a seu tempo. Nosso pensamento VOA MUITO ALTO. A CADA INSTANTE MUDA DE LUGAR. Ninguém SEGURA A TEMPESTADE QUE INVADE A NOSSA MENTE. APRENDEMOS CONTROLAR NOSSOS DESEJOS, MAS A CADA DIA SOMOS INVADIDOS POR ANSIEDADES, ANGUSTIAS, AFLIÇÕES QUE MANTEMOS CONSTANTEMENTE DENTRO DE NÓS.
MUITAS VEZES NÃO TEMOS FORÇAS PARA ALIVIAR A DOR QUE SENTIMOS.
ÀS VEZES É MELHOR CALAR DO QUE DESABAFAR. DEPENDE DE COM QUEM VOCÊ DESABAFA. MUITAS VEZES NEM ESCUTAM O QUE VOCÊ ESTAR FALANDO. SEU LAMENTO CALA AO VER A OUTRA PESSOA VIRAR AS COSTAS OU COMEÇAR OUTRO ASSUNTO.
QUANTA COISA NÃO OUVIMOS, QUANTA COISA SENTIMOS MAS NÃO ENXERGAMOS.
VOCÊ PODE NÃO ENXERGAR, PODE NÃO OUVIR, MAS JAMAIS DEIXE DE AMAR.
OBRIGADA POR LER ESTA HISTÓRIA DE AMOR E LUTA QUE TÃO SIMPLES AQUI EU NARREI.


 sobre a autora...
Maria do Carmo de S. Baptista - sou funcionária pública do estado de São Paulo, nasci em Triunfo PE.onde passei toda minha infância e adolescência.
Casada há trinta e seis anos com Luiz Carlos Baptista. 
Mãe de um único filho... Willy Baptista. Meu maior bem..
Meu passa tempo... Ler, escrever e ouvir música.